8. ARTES E ESPETCULOS 24.4.13

1. CULTURA  SER OU NO SER
2. CINEMA  ORIENTE MDIO PARA INICIANTES
3. LIVROS  ELE ACREDITA NA RAPAZIADA
4. VEJA RECOMENDA
5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
6. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  SOB O GRANDE COREGRAFO

1. CULTURA  SER OU NO SER
Ao expor Shakespeare como um negociante frio, um estudo ingls ajuda a demolir um mito: os grandes artistas podem, sim, ter ambio pelo lucro.
MARCELO MARTHE

     Na tragdia Coriolano, o ingls William Shakespeare narra a histria de um general romano que atia a revolta da plebe ao proibir a distribuio de cereais aos pobres. A medida cruel  estimulada por mercadores e nobres, com o objetivo de inflacionar o preo dos alimentos numa poca de fome na Roma antiga. Eis a traduo livre de uma das falas incendirias: "Sofreremos at ficar famintos, enquanto os celeiros deles esto cheios de gros". Um novo estudo acadmico expe a ironia embutida a: Shakespeare, quem diria, teve seu dia de Coriolano. Ao longo da vida, o dramaturgo amealhou uma bela fortuna  graas no apenas ao teatro. Com interesses em ramos comerciais diversos, ele foi o que se costuma chamar de argentrio: um sujeito com faro e gana para ganhar dinheiro. Nem que isso significasse, por vezes, ir contra certos ditames morais da Inglaterra elisabetana. Proprietrio de terras, Shakespeare fazia emprstimos a amigos cobrando juros de 10% ao ano  o que no constitua uma ilegalidade, mas ento era reprovvel do ponto de vista religioso. Consta que tambm foi processado por sonegao de impostos. Num lance mais chocante ainda, teria incorrido no mesmo pecado do personagem de sua pea: no momento em que a quebra da safra e incndios desastrosos provocaram fome em Stratford-upon- Avon, sua regio de origem, ele foi acusado de especular com estoques de malte. "H registros de que sua famlia chegou a ser ameaada por camponeses revoltosos", disse a VEJA um dos autores do estudo, o especialista em literatura Richard Marggraf Turley, da Universidade de Aberystwyth. 
     As manchetes dos jornais ingleses sugeriam que tais informaes seriam novidades bombsticas. No so. Os bigrafos j conheciam detalhes sobre a atuao do poeta como artista-empresrio. A inteno dos autores vai alm de recuperar o anedotrio. "Buscamos uma reinterpretao da obra de Shakespeare  luz de sua experincia como homem de negcios", afirma Turley. Coriolano ganha uma conotao poltica (e econmica) mais aguda quando se confrontam as entrelinhas do texto com a realidade  volta do dramaturgo. O mesmo se d com outra de suas peas clebres. Rei Lear. Mesmo num pas em que os cidados so versados em suas obras desde criancinhas, porm, a simples lembrana de que ele foi um negociante duro na queda causou um au. "H quem nos acuse de manchar a imagem de um heri nacional", diz Turley. Reaes assim so tolas, mas compreensveis. O senso comum  em uma noo ingnua embalada por edulcoraes romnticas  diz que os grandes artistas so sempre criaturas idealistas e desapegadas de bens materiais. Pura bobagem,  evidente: o sucesso ou fracasso comercial no determina a qualidade de um artista. A atrao de Shakespeare pelo lucro  a melhor  mas no a nica  prova disso (veja o quadro na pg. 124). 
     Os maiores mrtires da arte despossuda so, decerto, o escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849) e o pintor holands Vincent van Gogh (1853-1890). Poe era um bbado de alma torturada que se virava em subempregos como crtico de literatura enquanto produzia, sem retorno monetrio decente, sua sensacional obra gtica. Quanto a Van Gogh, sabe-se hoje ser um mito que ele tenha vendido um nico quadro em vida. Irmo de um marchand, o pintor s conseguiu comercializar, por bagatelas, coisa de uma dzia das cerca de 1300 telas que pintou  uma das quais, Retrato do Dr. Gachet, atingiu perto de 145 milhes de dlares, em valores corrigidos, num leilo em 1990. O fato de o artista insistir num estilo francamente anticomercial para sua poca, com as cores berrantes e pinceladas sem sutileza, hoje  celebrado como um rasgo visionrio. Para o prprio artista, porm, foi uma sina triste. A falta de f no prprio taco  fatal para qualquer empreendedor  tambm desgraou, no sculo XVII, o ingls John Milton: o poeta vendeu a um editor sua obra-prima, Paraso Perdido, por mdicas 10 libras. 
     Num batalho intermedirio figuram os artistas com ambio de enriquecer, mas ineptos na conduo das finanas. O pintor holands Rembrandt (1606-1669) e o romancista francs Honor de Balzac (1799-1850) sabiam impor o preo justo a seus trabalhos, mas davam um passo maior que a perna. Rembrandt investia com compulso em arte e raridades, alm de ter se endividado para comprar um casaro. Acabou quebrado: teve de vender tudo e mudar-se para uma residncia modesta. Balzac torrava o que ganhava em luxos e investimentos furados. Mais triste, na categoria em questo, s o caso de Mozart. O compositor austraco era um virtuose festejado nos sales vienenses do sculo XVIII. Nunca conseguiu impor, contudo, o devido valor a seu passe. 
     Mozart incorreu num erro que seu sucessor no panteo da msica clssica  o alemo Ludwig van Beethoven, catorze anos mais jovem  no repetiria. Beethoven cuidava obsessivamente da compilao de suas partituras, produzindo variaes de peas para diferentes instrumentos antes que algum aventureiro lucrasse em cima de seu suor sagrado. O compositor defendia seu dindim com tamanha eloquncia que um bigrafo disse ser mais fcil arrancar um pernil da boca de uma hiena do que uma concesso dele. Foi precursor, assim, da transio para uma era em que a fronteira entre arte e comrcio se nublaria. Tendncia, alis, que se consumou na figura do espanhol Pablo Picasso. Argentrio sem medo de ser feliz, o pintor foi um craque em farejar os rumos das vanguardas no comeo do sculo XX  criou o cubismo quando se ansiava por choque, fez Guernica quando se clamava por arte poltica. Na busca por um bom negcio, jogava seu charme viril para cima de colecionadores de ambos os sexos. 
     Shakespeare, ao que parece, no precisou de tanto. Na verdade, qualific-lo de mercenrio seria demais: e se o criador de Hamlet s desejasse, especula o novo estudo, fechar suas contas para se aposentar do teatro e se devotar apenas  atividade agrcola? "O desejo de mudar de rea seria uma explicao fascinante para um mistrio que sempre intrigou os estudiosos: a razo de ele ter parado de escrever na faixa dos 40 anos", diz Turley. O especialista arrisca um palpite: "Se vivesse hoje, ele talvez se dividiria entre a atividade de produtor de cinema e TV e o agronegcio". Alguns raros artistas, ao contrrio de Shakespeare, puderam se dar ao luxo de nem se preocupar com detalhes como aposentadoria. Com dotes geniais que iam da pintura  engenharia, o renascentista italiano Leonardo da Vinci sempre teve o apoio de mecenas poderosos, ainda que possusse defeitos capazes de minar a credibilidade de qualquer fornecedor de servios: demorava anos para concluir uma obra e nem sempre entregava o que prometia. A excelncia compensava o risco. 
     Risco  algo que os escritores nacionais aprenderam a driblar com jeitinho bem brasileiro. Para poetas americanos como T.S. Eliot (1888-1965) e Wallace Stevens (1879-1955), desdobrar-se entre a literatura e empregos mundanos suscitava questes existenciais. Eliot odiava trabalhar num banco. Contou at com a ajuda de vaquinhas dos amigos para se livrar do batente. Stevens no deixava, por nada, que as coisas se misturassem: para todos os efeitos, o esquisito preferia ser reconhecido como executivo de uma companhia de seguros. J seus pares das letras brasileiras nunca tiveram pudor em misturar tudo. Bom mesmo era um emprego no funcionalismo pblico no qual o autor tivesse tranquilidade para tocar a carreira paralela. O poeta Augusto dos Anjos (1884-1914) vagou por colocaes em grupos escolares. Machado de Assis (1839-1908) foi um barnab bem colocado, e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) exibia um orgulho cabotino por ter trabalhado em reparties ao longo de quase quarenta anos. Entre ter e no ter, melhor uma boquinha dessas do que um buraco na conta bancria.

PERDAS E GANHOS
Dos afortunados aos falidos, como os grandes artistas se viraram  ou se lascaram  nas finanas.

ESTES FORAM ARGENTRIOS
LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827): O compositor alemo tinha fama de ser uma raposa nos negcios. Primeiro grande artista a se pautar por uma conduta profissional em seu ramo, foi pioneiro na cobrana de direitos autorais. Irascvel, impunha preos altos aos contratantes  e ai de quem tentasse pechinchar.
PABLO PICASSO (1881-1973): Mestre da autopromoo, o pintor espanhol farejava os humores do mercado como nenhum outro vanguardista e se valia da mstica pessoal  inclusive da imagem viril  para faturar. Milionrio com apenas 33 anos, terminou a vida como o artista plstico mais rico da histria.

ESTES TENTARAM, EM VO, ENRIQUECER
REMBRANDT VAN RIJN (1606-1669): O pintor holands sabia valorizar seu passe. S a obra-prima Ronda Noturna lhe rendeu polpudos 1600 florins, arrecadados numa vaquinha dos arcabuzeiros que aparecem no quadro. Mas, como administrava mal suas despesas, faliu e teve de se mudar para uma casa modesta.
WOLFGANG AMADEUS MOZART (1756-1791): O compositor austraco foi um caso de artista de talento que no reverteu a fama e o prestgio em remunerao digna. Desatento at em relao  publicao de suas obras, ele sempre lutou - em vo  contra os baixos caches. A pindaba era agravada pelo estilo de vida perdulrio.
HONOR DE BALZAC (1799-1850): Apetite por dinheiro no faltava ao francs Balzac. No incio da carreira, o autor de Iluses Perdidas fez novelas baratas para sobreviver. Quando alcanou o sucesso financeiro, acabou dissipando-o em luxos e investimentos ruinosos, como a compra de madeira na Ucrnia para vender em seu pas.

ESTES FORAM UMA NEGAO NOS NEGCIOS
JOHN MILTON (1608-1674): O poeta ingls nasceu num bero remediado e foi um aluno-prodgio. Mas certas paixes  mulheres e os embates polticos  minaram seu patrimnio. Cego e empobrecido, ele ditou aos parentes os versos de sua obra-prima, Paraso Perdido. Sem enxergar tambm o valor de seu trabalho, vendeu o poema a um editor por uma ninharia: 10 libras.
EDGAR ALLAN POE (1809-1849): Filho adotivo de um mercador de tabaco, o americano Poe abriu mo da fortuna em prol da vida errtica como escritor e critico. Viciado em jogo e bebida, vagou por empregos de fome. Ao trocar os direitos de Histrias Extraordinrias  volume de contos que viraria um marco do terror  por meras 25 cpias do livro, tornou-se smbolo da luta pela valorizao dos escritores.
VINCENT VAN GOGH (1853-1890): O pintor holands foi o cmulo de uma categoria fadada  danao financeira: a dos empreendedores que no botam f em seu produto. Alm de configurarem suicdio comercial, as pinceladas grossas de suas obras no satisfaziam nem a ele prprio. Do ponto de vista mercadolgico, o balano da carreira  desastroso: de 1300 telas produzidas, vendeu em vida menos de uma dzia.


2. CINEMA  ORIENTE MDIO PARA INICIANTES
Em Uma Garrafa no Mar de Gaza, uma menina israelense e um rapaz palestino iniciam uma amizade a distncia.

     Filha de judeus franceses emigrados para Jerusalm, a adolescente Tal (Agathe Bonitzer) tem, em Uma Garrafa no Mar de Gaza (Une Bouteille  la Mer, Frana/Israel/ Canad, 2011), j em cartaz em So Paulo e Porto Alegre, o olhar dos estrangeiros  e o dos bem jovens  sobre seu novo pas: no consegue entender como israelenses e palestinos chegaram ao seu impasse de agresso e isolamento mtuos. Quando uma amiga morre em um atentado na vspera de seu casamento, Tal, consternada, formula uma espcie de voto de paz. Pede ao irmo, um soldado israelense, que jogue ao mar uma garrafa com uma mensagem na qual exorta quem a encontrar, do outro lado dessa divisa, a contar-lhe quem  e por que as coisas so como so. A garrafa  encontrada numa praia de Gaza, a 70 quilmetros dali, por  um grupo de amigos palestinos, que riem da ingenuidade da menina. Em segredo, porm, um deles, Nam (Mahmoud Shalaby), comea a se corresponder por e-mail com Tal, primeiro desafiando-a e depois deixando-se envolver pela amizade dela. Tal, de 17 anos, e Nam, de 20, no tm reflexes polticas sagazes a ofertar ao espectador. O que eles tm, na viso do diretor Thierry Binisti,  o desejo simples de viver num mundo melhor  sem bombas caindo sobre sua cabea, sem a humilhao dos checkpoints, sem a tirania com que o Hamas domina a vida dos palestinos amontoados em Gaza. Tm tambm a candura de acreditar que as conexes pessoais podem derrotar as circunstncias (at as to tumultuadas quanto o cessa e recomea fogo de 2007, ano em que transcorre o filme). 
     Em certa medida, podem mesmo: graas a Tal, Nam vai procurar um curso de francs, e este lhe abre uma porta para, quem sabe, ir viver no exterior. O filme sublinha, com delicadeza, que essa  a nica oportunidade possvel de que Tal e Nam venham a se ver frente a frente um dia: a de se encontrarem num territrio neutro longe dali, j que a curta distncia que os separa no presente  intransponvel. Com toda a sua suavidade, entretanto, Uma Garrafa no Mar de Gaza se inclui numa corrente que cada vez mais ganha corpo e se torna incisiva na produo de Israel  ao mesmo tempo crescentemente pessimista quanto  possibilidade de que algum acordo de paz venha a ter xito, e abertamente favorvel a que os israelenses considerem a situao impossvel em que se encontram cidados palestinos como Nam e sua me (Hiam Abbass), imprensados entre a crueldade de suas prprias lideranas e o confinamento imposto por Israel. 
ISABELA BOSCOV


3. LIVROS  ELE ACREDITA NA RAPAZIADA
O romancista americano John Green tornou-se um fenmeno do segmento jovem com livros que prestam homenagem  inteligncia dos adolescentes.
JERNIMO TEIXEIRA

     Os personagens de John Green costumam ser adolescentes  e muito inteligentes. Colin Singleton, o heri de O Teorema Katherine (traduo de Renata Pettengill; Intrnseca; 304 pginas; 29,90 reais, ou 19,90 reais na verso digital), recm-lanado no Brasil,  um gnio matemtico com estranhas fixaes verbais: s namora meninas chamadas Katherine (a narrativa comea, alis, quando o personagem leva um fora da dcima nona namorada da srie). A Culpa  das Estrelas, tambm publicado no Brasil pela Intrnseca,  narrado e protagonizado por Hazel Grace, uma adolescente que sofre de cncer na tireoide e tem adorao fervorosa pela obra de Peter Van Houten, escritor americano que publicou um nico romance e se exilou na Holanda. Van Houten  fictcio, mas a obra traz outras referncias literrias, a comear pelo ttulo, que cita Jlio Csar, de Shakespeare. Pela voz de Hazel, Green fala em Vladimir, Estragon e Godot e no se sente obrigado a dizer em que pea teatral esses personagens figuram, e cita versos de A Cano de Amor de J. Alfred Prufrock sem nomear o autor do poema. O escritor americano d de barato que o leitor adolescente conhece esses clssicos, ou que, caso no os conhea, ser esperto o bastante para buscar a informao nos livros ou na internet (o leitor presumivelmente adulto desta resenha ter percebido que a mesma f acaba de ser depositada sobre ele). Parece ter funcionado: A Culpa  das Estrelas vendeu cerca de 1 milho de exemplares nos Estados Unidos. No Brasil, foram perto de 90.000, e contando: nesta semana, a obra est em sexto lugar na lista de mais vendidos de fico em VEJA. Aos 35 anos, com cinco livros publicados, John Green  uma estrela do segmento chamado de young adult  a literatura para adolescentes e jovens, que, pelo menos antes do estouro do erotismo soft com Cinquenta Tons de Cinza, era o grande esteio da indstria editorial americana. "No me oponho ao rtulo, mas talvez os leitores adultos de A Culpa  das Estrelas possam se incomodar com ele", diz Green. "Gosto de escrever para adolescentes e sobre adolescentes.  um privilgio falar com um leitor que est formando os valores que carregar para toda a vida." 
     A conversa de Green com adolescentes e "jovens adultos" (assim se traduz literalmente young adult) no se limita aos livros. Ao lado do irmo Hank, que tem um selo de msica e um site voltado para temas ambientais e tecnolgicos, o escritor mantm um canal no YouTube, o VlogBrothers, com mais de 1,1 milho de seguidores. O nmero  tanto mais impressionante quando se considera a simplicidade da produo: sem efeitos ou firulas, os vdeos se limitam a mostrar os dois irmos, alternadamente, falando para a cmera sobre temas contemporneos  como o casamento gay, as recentes ameaas blicas da Coreia do Norte ou o atentado a bomba na maratona de Boston. John mora em Indianpolis, no estado de Indiana, onde sua mulher  curadora de arte contempornea em um museu local. Hank mora em outro estado, Montana. Os vdeos, portanto, tm a forma de uma esticada conversa entre dois irmos. Pela internet, o duo tambm levanta dinheiro para causas de caridade. E os dois irmos ainda se arriscam no palco, com um show de variedades  piadas, sesses de perguntas e respostas com a plateia, canes sobre fsica e sobre Harry Potter  que j foi apresentado no venerando Carnegie Hall, em Nova York. Os empreendimentos da dupla na internet ganharam aprovao oficial: a convite do Google. John Green participou, junto com outras personalidades da internet, de uma videoconferncia com Barack Obama. E pediu ao presidente que resolvesse uma disputa familiar: que nome dar a sua filha, que deve nascer em junho  Alice ou Eleanor? O presidente, muito poltico, esquivou- se da escolha. 
     Embora Green diga que no  de forma alguma o lder de um culto ("cultos pedem dinheiro dos seus membros"), os seguidores do VlogBrothers compartilham uma cena identidade de grupo. Definem-se como "nerdfighters". "O nerdfighter  o nerd que celebra a sua 'nerdidade'", define Green. Ou seja, e' o nerd que, longe de se envergonhar de sua coleo de livros de fico cientfica e de bonecos de super-heris, tem orgulho de se dedicar a essas coisas. As obras do autor, porm, no se enquadram exatamente no padro da turma. Sim, O Teorema Katherine traz um apndice, escrito por um matemtico, com grficos e equaes que pretendem explicar relaes amorosas  tal seria o modo nerd de compreender o amor (ou, antes, de superar uma desiluso amorosa). Mas as histrias de Green no se passam em planetas distantes ou em reinos medievais mitolgicos. Seja no registro humorstico de O Teorema Katherine ou no melanclico de A Culpa  das Estrelas, a literatura de Green  miudamente realista e firmemente ancorada nos dias de hoje. Seus adolescentes conversam por mensagens de celular e jogam videogames. O esprito literrio de Hazel no tem muito a ver com a "nerdidade". "Eu diria que a maioria dos que acompanham meu blog em vdeo no leu meus livros, e a maioria dos que leram meus livros no me segue na internet", especula Green. 
     Um ponto, porm, une os personagens de Green aos nerds: a propenso  atividade intelectual. Hazel e seu namorado, Augustus Waters, esbanjam cultura e inteligncia em seus dilogos. Talvez at demais: em alguns momentos, a naturalidade se esvai, e parece que os personagens no esto conversando, mas lendo um roteiro. Ambos vitimados pelo cncer  ela tem capacidade respiratria comprometida e no pode sair de casa sem o tanque de oxignio: ele perdeu uma perna para um osteossarcoma , falam de seus dramas com ironia e desassombro, e sem nenhuma concesso a chaves como "superao". Green aceita a classificao de young adult, mas recusa vigorosamente  e com razo  o pejorativo rtulo sick lit (literatura de doena  veja o texto ao lado e a entrevista cio autor na pgina anterior). O autor estudou em uma universidade religiosa e chegou a considerar a possibilidade de ser ministro episcopal. A vocao religiosa no vingou, mas. mesmo nos genericamente clicos Hazel e Augustus. h uma certa chama espiritual, uma inquirio sobre ordem e sentido em um mundo de sofrimento. "No sei se acredito nessa ordem", diz John Green. "Mas acredito na esperana de que ela exista."

"NO QUERO SER MAIS FAMOSO"
Autor best-selter e estrela de um canal do YouTube com 1,1 milho de seguidores, o americano John Green, 35 anos, falou a VEJA sobre a inteligncia dos adolescentes  especialmente dos que o seguem na internet. 

Adolescentes so mais inteligentes do que supomos? 
Adolescentes so, sim, mais inteligentes do que os adultos pensam  apenas no agem de forma inteligente quando esto na nossa presena. Eles se sentem desconfortveis, intimidados perto de ns, e por isso raramente temos a oportunidade de ver o melhor deles. Felizmente, eu tenho essa oportunidade. Vejo os comentrios que eles deixam no blog, e eles se mostram muito interessados e inteligentes. No todos,  claro, mas a maioria deles. 

O que o senhor pensa do termo sick lit literatura de doena), com o qual se tem caracterizado A Culpa  das Estrelas? 
Parece at que fui eu que inventei o romance sobre doenas. E A Montanha Mgica, de Thomas Mann, ou O Amor nos Tempos do Clera, de Gabriel Garcia Mrquez? Os jornais tm de criar essas classificaes. Eu no quis retratar a doena como sendo transcendente, nem passar a mensagem de que ela nos ensina a sermos gratos por cada dia - nenhuma besteira dessas. Apenas tentei escrever uma histria honesta sobre o cncer. 

O senhor escreve romances de sucesso e, em parceria com seu irmo Hank, faz vdeos na internet e apresentaes em teatros. Pensa em expandir suas atividades para a televiso, por exemplo? 
Gosto de muitas sries televisivas, como The Walking Dead, mas no gosto de televiso em geral. E, para ser completamente honesto: no quero ser mais famoso. No tenho desejo nenhum de ser mais reconhecido na rua.

O ROMANTISMO DAS DOENAS
     Livros sobre adolescentes afetados por doenas terminais, depresso, crises psiquitricas e eventuais tendncias suicidas contam-se s dezenas nos Estados Unidos e na Inglaterra. Depois dos vampiros da srie Crepsculo, esta parece ser a nova tendncia do mercado de literatura juvenil  tendncia que ainda no se verificou no Brasil: afora A Culpa  das Estrelas, de John Green, apenas As Vantagens de Ser Invisvel (Rocco), de Stephen Chbosky, sobre um adolescente cujo melhor amigo cometeu suicdio, tem frequentado a lista de mais vendidos de VEJA. O termo que se popularizou para nomear essa vertente tem algo de derrisrio: sick lit (literatura de doena) ecoa chick lit (literatura para garotas), gnero bobinho cujo grande expoente foi O Dirio de Bridget Jones, de Helen Fielding. John Green relativiza o termo lembrando que doena e sofrimento sempre foram temas da grande literatura  eis a A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, ou, para citar s um exemplo recente da literatura adulta, Homem Comum, de Philip Roth. H crticos, porm, que acusam os romances "doentios" voltados especificamente para adolescentes de crimes os mais variados, da trivializao  glamourizao da doena e at do suicdio. Tal foi o tom de um artigo inacreditavelmente moralista publicado pelo jornal ingls Daily Mail em janeiro. 
     A glamourizao da doena, porm, tambm no  novidade: o sculo XIX praticamente fez da tuberculose uma herona romntica, como se atesta na agonia da cortes de A Dama das Camlias, de Alexandre Dumas Filho. Ainda que o escritor que se dirige a mentes jovens e impressionveis talvez tenha de exercer certa prudncia, o fato  que muitos adolescentes gostam de temas mrbidos em geral, e em particular do apelo romntico associado  morte de um jovem apaixonado. Embora no se possa negar uma forte veia sentimental em A Culpa  das Estrelas  e o prprio autor admite que chorou ao escrever todos os seus livros, com exceo do bem-humorado O Teorema Katherine , ela est dosada no limite certo para jamais descambar no dramalho. No h sensacionalismo trivial, nem se idealiza o cncer que atormenta os dois protagonistas. Hazel, a narradora,  brutalmente realista no modo como fala do prprio sofrimento. No oferece consolo fcil. Eis mais uma qualidade que pode conquistar o jovem leitor: este  um livro que no tenta engan-lo.


4. VEJA RECOMENDA
BLU-RAY
BEN-HUR, O CANTOR DE JAZZ, CASABLANCA, CIDADO KANE, DOUTOR JIVAGO, ...E O VENTO LEVOU (WARNER)
  imensa a quantidade de clssicos que as distribuidoras vm pinando de seus catlogos e lanando em alta definio, quase sempre em verses restauradas e remasterizadas. Neste ms, porm, a Warner trouxe para campo a artilharia pesada: est colocando  disposio de uma s vez em Blu-ray uma batelada de filmes definitivos em seus respectivos gneros, da primeira produo falada, O Cantor de Jazz, de 1927 (cujas atitudes raciais incorretas devem ser hoje vistas  luz da histria), ao ttulo que invariavelmente encabea as listas de melhores filmes de todos os tempos  Cidado Kane (1941), de Orson Welles. O pacote inclui ainda ...E o Vento Levou (1939), em Technicolor cintilante e sempre mais envolvente do que se esperaria de um filme septuagenrio e com quase quatro horas de durao; Ben-Hur (1959) com Charlton Heston, que a despeito de sua grandiloquncia permanece o padro-ouro do pico histrico: nada menos que Casablanca (1942), o antolgico romance que Humphrey Bogart e Ingrid Bergman vivem  merc das mars da II Guerra. E, completando a lista, Doutor Jivago (1965), que, embora no se compare a Lawrence da Arbia,  sempre um David Lean.

DISCO
REGIONS OF LIGHT AND SOUND OF GOD, JIM JAMES (SLAP)
 Gods'Man  uma graphic novel criada em 1929 pelo americano Lynd Ward (1905- 1985). Toda em preto e branco e sem dilogos, ela conta a histria de um pintor preso a um contrato Faustiano. Jim James, guitarrista e vocalista do grupo de rock alternativo My Morning Jacket, conheceu a obra de Ward enquanto se recuperava de uma queda do palco que o deixou imobilizado por trs semanas. O cantor encontrou semelhanas entre os esforos artsticos do heri autobiogrfico de Ward e a trajetria de sua prpria banda. Regions of Light and Sound of God, seu primeiro disco-solo,  o resultado direto desses questionamentos. Mas no se trata de um lbum temtico: James apenas aproveita algumas das ideias da obra de Ward para criar composies que falam de amor e f, nos mais diversos estilos musicais. "Eu segui os sonhos errados", diz em All Is Forgiven, faixa que vai do jazz s sonoridades do Oriente Mdio. O nico, digamos, perigo  a converso incondicional do ouvinte. Canes como Dear One, com seu discreto arranjo eletrnico, e a balada Actress mostram que h redeno para a msica pop.

LIVROS
A VIDA FINANCEIRA DOS POETAS, DE JESS WALTER (TRADUO DE PAULO REIS; BENVIR; 352 PGINAS; 39,90 REAIS)
 A conjuno de pretenso literria e mau julgamento econmico fez a desgraa do jornalista Matt Prior. Ele abandonou um emprego relativamente seguro em um jornal, onde trabalhava como reprter de negcios, para lanar um site dedicado a dar conselhos financeiros na forma de poesia em verso livre. O site muito obviamente fracassou, e Prior se v desempregado e endividado em plena crise, tendo de sustentar mulher, dois filhos e um pai senil. Para agravar a situao, ele ainda no contou  mulher  que desperdia o parco dinheiro da famlia comprando cacarecos em leiles on-line  que a famlia est muito perto de ser expulsa de sua casa por falta de pagamento da hipoteca.  ento que Prior, em um lance fortuito, pensa ter descoberto a soluo para seus problemas: tornar-se um traficante de maconha. Aclamado como um grande nome do humor, o americano Jess Walter cria aqui um retrato satrico e cido do mundo de iluses que precedeu a crise  e, sobretudo, das solues delirantes que se tm buscado para fugir dela.

QUASE BORGES, DE JORGE LUS BORGES E AUGUSTO DE CAMPOS (MUSA RARA/TERRACOTA; 100 PGINAS; 39 REAIS)
 Embora seja o nome central do modernismo argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986) era reticente em relao  modernidade e suas modas. Como poeta, preferiu quase sempre o verso metrificado, com uma dico lmpida, direta, que quase se diria clssica. No parece formar um par congruente com o poeta concreto paulista Augusto de Campos  que, no entanto, visitou o autor de O Aleph em seu apartamento de Buenos Aires, em 1984, e com ele teve uma longa e saborosa conversa, pontuada por citaes de Dante Alighieri, John Keats e James Joyce. O relato dessa entrevista estende-se por quatro pginas deste pequeno mas precioso livro. Em meio  discusso literria, Campos apresenta detalhes prosaicos que ajudam a compor Borges como um personagem: o orgulho com que ele mostra sua bengala irlandesa aos visitantes, ou o caf que Borges, cego, deixa esfriar porque sua governanta no o avisara de que a xcara estava servida. Mas o melhor deste volume so os vinte poemas de Borges, traduzidos com a competncia e a criatividade prprias de Augusto de Campos.

CINEMA
GINGER E ROSA (INGLATERRA/DINAMARCA/CANAD/CROCIA, 2012. J EM CARTAZ)
 Nascidas em 1945, no momento em que as bombas atmicas caam sobre Hiroshima e Nagasaki, ligadas desde os primeiros segundos de vida, graas  amizade entre suas mes, e inseparveis todos os dias desde ento. Ginger (Elle Fanning) e Rosa (Alice Englert, filha da diretora Jane Campion) chegam  adolescncia sob outra ameaa nuclear  a do impasse entre Estados Unidos e Unio Sovitica nas guas de Cuba, em 1962. Enquanto os noticirios da BBC sobem o tom e anunciam um conflito iminente, as duas negociam problemas de magnitudes diversas na Londres triste e cinzenta de ento, na qual no se divisava ainda nem prenncio da exploso pop que logo mudaria o pas e o mundo. As meninas se engajam no ativismo pacifista (Ginger bem mais do que Rosa), interessam-se pelo sexo oposto (Rosa bem mais do que Ginger), irmanam-se no desprezo por suas respectivas mes e compartilham a sensao de que o mundo est para acabar. E est mesmo, mas no da forma como elas imaginam. A luminosa e assombrosamente talentosa Elle Fanning, de Super 8 e Um Lugar Qualquer,  o corao deste filme da cineasta veterana Sally Potter.


5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA 
4. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA
5. o Destino do Tigre  Collen Houck. ARQUEIRO
6. A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA 
7. Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS 
8. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA
9. Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA 
10.   Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA 

NO FICO
1. Sonho Grande  Cristiane Correa. PRIMWIRA PESSOA
2. Casagrande e Seus Demnios  Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO
3. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR
4. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA
5. Lincoln  Doris Kearns Goodwin. RECORD 
6. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
7. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
8. O Livro de Filosofia  Vrios. GLOBO 
9. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verssimo. OBJETIVA
10. 1808  Laurentino Gomes. PLANETA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
2. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
4. Uma Prova do Cu  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE 
5. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
6. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
7. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
8. Faa Acontecer  Sheryl Sandberg. COMPANHIA DAS LETRAS
9. 50 Coisas que Voc Pode Fazer para Controlar a Ansiedade  Wendy Green. LAFONTE
10. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE


6. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  SOB O GRANDE COREGRAFO
     A semana passada teve como destaques no mundo o atentado de Boston e a tenso ps-eleitoral na Venezuela, mas o colunista confessa que tem um fraco pela Coreia do Norte, e lamenta haverem arrefecido as ameaas e os filmetes mostrando os preparativos de guerra naquele pas. A diverso era garantida. No dia 30 de marco o governo de Pyongyang declarou-se em estado de guerra contra o inimigo do sul, e ameaou um ataque, inclusive nuclear, que "explodiria" as bases americanas no Pacfico e "reduziria a cinzas" as instalaes governamentais da Coreia do Sul. O comunicado foi lido na televiso, em nome do presidente Kim Jong-un, por um apresentador de terno escuro e gravata cinza, que enfatizava com voz forte, em certos momentos quase aos gritos, a gravidade da situao. O fundo era de um azul igualmente escuro, de cu na iminncia de tempestade, e acordes hericos abriram e fecharam a transmisso.  
     Uma primeira evidncia, com base no que as transmisses de televiso (estatal, naturalmente) filtram do pas,  que a Coreia do Norte no conhece o teleprompter. Eis um fato de cuja relevncia os dirigentes no se do conta. Os apresentadores, seja o homem de terno cinza, seja uma mulher que s vezes tambm l os comunicados oficiais, tm sempre os olhos baixos, colados ao texto sobre a mesa. Na poca em que havia duas Alemanhas, a comunista comeou a ruir quando seus cidados, ao conseguirem captar a televiso do outro lado, se deram conta da diferena entre as transmisses coloridas, com variadas opes, existentes por l, e a TV em preto e branco, monocrdia e oficial, que lhes atazanava a pacincia de seu lado. Os lderes da Coreia do Norte inverteram suas prioridades; investiram na bomba atmica, em vez de no teleprompter. A experincia alem indica que modernizar a televiso  instrumento mais til para a sobrevivncia de um regime do que armas nucleares.  
     Aos comunicados, acrescentava-se a divulgao de filmetes com desfiles e exerccios militares. Os desfiles com soldados em passos rigorosamente sincronizados, a indicar que um Grande Coregrafo, de par com o Grande Irmo, zela pelos norte-coreanos, j conhecemos de outras crises. Mais inovadores foram os exerccios, como um que mostrava os soldados, dois a dois, envolvidos numa luta de jud, ou parecida com jud. Presumia-se que o pas se preparava para uma ttica que combinava o ataque nuclear com luta corporal. Em outro filme, os soldados treinavam tiros de pistola.  bomba nuclear e  luta corporal, juntava- se o tiro de pistola no plano de combate. Os soldados tambm eram mostrados em exerccios de ginstica cujos movimentos sincronizados igualmente traam o dedo do Grande Coregrafo. 
     A grande estrela dos filmetes era, claro, Kim Jong-un, o novel lder mximo, o terceiro da dinastia no poder. Baby Kim foi mostrado dando instrues aos generais (o menino sabe mandar!), perscrutando o horizonte de binculo (o menino enxerga longe!), e at, ele tambm, testando a mo numa pistola (ele est pronto para lutar!). A insistncia com que aquela quase criana, ainda com o mesmo ar cndido com que foi fotografado numa visita clandestina  Disneylndia de Tquio, era mostrada em to adultas e graves poses sugere que o menino, no meio dos generais, na verdade no manda, no enxerga alm do prprio nariz, nem est pronto para lutar. Ele  apenas a pea de arremate, a figura central de que o Grande Coregrafo necessita para fazer mover o conjunto da engrenagem.  
     Tudo seria muito mais divertido se no se soubesse que o Grande Coregrafo vai alm de sincronizar movimentos exteriores. Ele atua igualmente na orquestrao das emoes. Na Coreia do Norte multides choram em conjunto, como se viu nos funerais de Kim Jong-Il, o pai de Baby Kim, e casais fazem visitas devocionais  esttua gigante de Kim Il-sung, o av. So exteriorizaes do controle das mentes. E o controle das mentes, como se sabe desde Orwell, caracteriza os regimes totalitrios, distinguindo-os das simples ditaduras. Na Coreia do Norte, o totalitarismo, mais presente do que em qualquer outro regime atual, cumpre com eficincia sua funo de infantilizar e dopar a populao.
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Um erro de digitao na ltima coluna mudou o verbo "revoltar" em "revolver", no trecho sobre a mudana do nome do aeroporto de Salvador, de "2 de Julho" para "Lus Eduardo Magalhes". O certo : "Revoltai-vos, cidados da boa terra!". O apelo continua valendo.


